Mateus Hilário Dias - A arte também exige um planejamento

Para Mateus Hilário Dias, a arte começou como uma pergunta sobre como alguém conseguia se tornar outra pessoa.
Ainda criança, assistia a filmes, séries e novelas e se perguntava como os atores davam vida aos personagens.
A profissão, porém, parecia distante. Nascido em Pedregulho, no interior de São Paulo, Mateus cresceu longe do eixo Rio-São Paulo, que enxergava como o centro das oportunidades para quem queria atuar.
Durante a pandemia, aos 14 ou 15 anos, decidiu estudar arte e descobrir como poderia entrar naquele universo. Fez cursos, participou de oficinas e se aproximou do teatro de Franca. O que antes parecia uma profissão distante começou a ganhar caminhos concretos.
Ao terminar o ensino médio, Mateus tomou uma decisão que poderia parecer inesperada para alguém que já havia escolhido a atuação: cursou Análise e Desenvolvimento de Sistemas.
A escolha tinha uma intenção bastante concreta. Ele queria construir uma estabilidade financeira que lhe permitisse continuar se formando artisticamente sem depender de uma mudança de cidade ou dos custos de uma formação em artes.
Ao mesmo tempo, recusava-se a esperar por essa estabilidade para começar. “Eu quero fazer acontecer”, afirma. “Eu não quero ter que esperar, fazer uma faculdade, me estabilizar financeiramente para depois começar.” Enquanto estudava tecnologia, continuou fazendo workshops, cursos e imersões, até obter o DRT de ator e começar a trabalhar em projetos artísticos.
A própria pesquisa acabou ampliando o que Mateus entendia por ser artista. Ao procurar caminhos para a atuação, encontrou produção, dramaturgia, música e outras possibilidades dentro da arte. Cada descoberta trazia novas perguntas e pessoas para conhecer, fazendo com que sua formação acontecesse também fora de uma sala de aula.

O que o mantém nesse percurso é, em grande parte, a vontade de comunicar sentimentos, pensamentos e observações por meio daquilo que cria.
Hoje, sua rotina reúne essas duas formações. Durante o dia, trabalha como desenvolvedor web; à noite, faz um curso técnico de teatro no Senac. Também atua, produz e desenvolve projetos com o Grupo Dispersão, enquanto conclui um MBA em Data Science and Analytics. A tecnologia não aparece como um plano provisório até que a arte dê certo. É uma profissão que ele gosta e que, neste momento, sustenta a construção da carreira artística que pretende levar adiante.
Essa simultaneidade ajuda a explicar a maneira como Mateus enxerga a própria profissão. Para ele, ser artista não é uma atividade que precisa permanecer à margem da vida até que as circunstâncias permitam levá-la a sério. “Eu coloco a arte como algo sério”, diz. “Não é simplesmente um hobby.” Seu objetivo é que, no futuro, ela também possa se tornar sua principal fonte de renda. Até lá, trabalha para que uma coisa sustente a outra, sem tratar nenhuma das duas como provisória.
Levar a arte a sério, para Mateus, também significa aceitar que ela não precisa entregar respostas prontas. Quando cria, procura transformar em cena, texto ou imagem aquilo que sente, pensa e observa, oferecendo ao público seu próprio ponto de vista. Ao mesmo tempo, gosta da arte experimental, das camadas e da possibilidade de deixar parte do sentido nas mãos de quem assiste.
“A arte nem sempre precisa ser óbvia”, explica. Ele quer provocar o espectador a permanecer dentro da obra, investigar e construir parte do significado por conta própria.
Essa abertura também modifica a maneira como ele próprio olha para as obras que encontra. Por considerar a arte subjetiva, Mateus diz que ela o ajuda a compreender diferentes pontos de vista.
Não se trata apenas de provocar uma reação em quem assiste, mas de também sair de cada experiência com novas perguntas e perspectivas. Talvez por isso não goste de pensar nas pessoas como “meros espectadores”. Prefere trabalhos que permitam algum tipo de envolvimento, em que quem está diante da obra também tenha espaço para experimentar, interpretar e responder.
MIAnorial, peça contemporânea pós-dramática que escreve para o Grupo
Dispersão, talvez seja onde essa visão aparece de maneira mais concreta.
Apresentada no Festival Águas de Março, onde recebeu Menção Honrosa em Artes Cênicas, a obra foi conduzida por Mateus como dramaturgo, diretor e produtor, mas nasceu de um processo em que os próprios atores participaram da construção do cenário, figurino, som e iluminação.

O resultado reúne justamente aquilo que ele procura na arte: experimentação, autoria e colaboração. Para Mateus, nenhuma dessas dimensões existe completamente isolada. “Trabalhar em grupo é essencial, é muito importante. A gente quase nunca faz nada sozinho.”
Essa disposição para construir junto também aparece na gestão da sua rotina. Enquanto os dias úteis são divididos entre o trabalho e o curso técnico, os fins de semana, que para muitas pessoas representam descanso, tornam-se o intervalo em que se dedica aos projetos individuais e ao Grupo Dispersão.
Às vezes, isso significa abrir mão de um passeio, de um espetáculo ou de algumas horas de descanso. Ainda assim, Mateus não descreve essas escolhas como uma prova de sacrifício. Elas fazem parte da decisão de tratar a arte como trabalho.
É justamente aí que aparece uma das poucas preocupações que ele associa ao caminho artístico. Mateus diz ainda não ter vivido grandes frustrações nesse percurso, mas reconhece um receio: dedicar seu tempo a um projeto coletivo e descobrir que as pessoas ao seu redor não estão igualmente comprometidas.
Para alguém que valoriza tanto a colaboração, a sintonia entre quem participa de uma obra é parte fundamental do processo.
Essa postura atravessa também sua relação com a tecnologia. Mateus gosta do desenvolvimento web e reconhece que o olhar construído pela arte influencia até seu trabalho como desenvolvedor, especialmente na escolha de imagens, cores, tipografia e composição visual. O que leva de uma área para a outra é também uma disposição para pensar soluções, experimentar possibilidades e transformar uma ideia em algo concreto. Da arte, leva ainda “o desejo de fazer as coisas” e, principalmente, de fazê-las bem.
O próximo passo, para ele, é fazer essas obras circularem. Mateus quer levar seus trabalhos para além de Franca, percorrer outras cidades do estado e, eventualmente, outros lugares do país.
Há também um destino pessoal nessa trajetória: Pedregulho, sua cidade natal, onde ainda não apresentou uma obra. Seu interesse não está restrito ao teatro como linguagem. Questões sociais, políticas e culturais, além das relações entre cultura, educação e saúde, despertam nele perguntas que podem encontrar forma na arte.

Talvez por isso seu conselho para quem também quer criar seja menos romântico do que parece. Mateus não recomenda esperar pelas condições perfeitas. Sugere começar com o que houver: algumas horas no fim de semana, uma noite, um intervalo pela manhã.
Estruturar uma ideia, desenvolvê-la aos poucos e, com o tempo, perceber quais partes da rotina podem ser reorganizadas. “Só não deixe de criar”, resume.
Para ele, até a liberdade artística precisa de método: “a arte também exige um planejamento, não é algo bagunçado.”


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