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Maria Luiza Salomão Smozono - eu oceano

2 hours ago
6 min read


Às vezes, Maria Luiza precisa parar o que está fazendo para escrever uma frase antes que ela desapareça.


Pode estar estudando, pensando em outra coisa ou simplesmente atravessando um dia comum. Uma situação, uma palavra ou uma metáfora surge, e deixá-la para depois significa correr o risco de perdê-la. A escrita, para ela, não acontece apenas quando há tempo reservado para criar. Muitas vezes, ela aparece justamente no meio do que já estava acontecendo.


Maria Luiza é estudante, vive em Franca e escreve poemas, contos e crônicas. Antes mesmo de saber ler, já carregava livrinhos pela casa e fingia lê-los, inventando as histórias de cada um. Aos 12 anos, escreveu um conto de suspense para uma aula de redação e descobriu que também podia criar histórias, e não apenas lê-las. A partir dali, a escrita ganhou outro significado: tornou-se uma maneira de organizar pensamentos, transformar sentimentos em palavras e dizer coisas que nem sempre encontravam outra forma de existir.


Hoje, escrever continua sendo uma prática que precisa dividir espaço com o restante de sua vida. Suas ideias costumam surgir sem aviso, enquanto estuda, observa alguma coisa ou está ocupada com outras tarefas. Quando isso acontece, ela nem sempre consegue esperar: precisa registrar a ideia antes que ela perca a forma que tinha na cabeça.


O problema, porém, não é apenas encontrar tempo. É encontrar espaço na própria cabeça. Há ideias que gostaria de desenvolver, mas que acabam esperando porque outras preocupações ocupam o lugar. “A escrita não exige que eu esteja sempre inspirada, mas exige que eu consiga estar presente.”


Ainda assim, a relação funciona nos dois sentidos. Se a rotina dificulta a criação, a

criação também muda a maneira como Maria Luiza atravessa a rotina. “A escrita me oferece uma espécie de leveza e organização.” Muitas vezes, ela só entende o que estava sentindo depois de transformar aquilo em palavras. A prática também a tornou mais atenta às pequenas coisas: um gesto, uma situação comum, uma imagem que antes poderia passar despercebida.


Sua escrita passou a modificar seu próprio olhar. “Minha forma de olhar para o mundo deixou de ser apenas uma forma de questioná-lo ou querer transformá-lo e passou também a ser uma forma de contemplá-lo.” Experiências difíceis podem ganhar palavras; sensações confusas podem adquirir forma; e aquilo que parecia apenas uma inquietação pode acabar se tornando alguma coisa que ela consegue compreender e, às vezes, transformar em beleza.


Essa transformação está presente em "eu oceano", poema que Maria Luiza escolhe entre suas criações mais importantes. O texto nasceu em um momento em que ela se sentia pequena diante da dimensão do mundo. Sempre havia tido vontade de ajudar, transformar e tornar as coisas melhores, mas começou a perceber que algumas dessas coisas eram grandes demais para uma pessoa só.


O oceano tornou-se a imagem dessa desproporção. No poema, a narradora tenta descobrir quem é quando não está cuidando de outra pessoa, amando outra pessoa ou tentando consertar alguma coisa. O mar cresce enquanto sua própria identidade parece diminuir. Ao longo dos meses em que escreveu o texto, porém, Maria Luiza também mudou. Quando terminou, já não era a mesma pessoa que o havia começado.


O que mais importa para ela, no entanto, acontece depois. Quando compartilhou o poema, outras pessoas começaram a falar sobre suas próprias experiências e a encontrar nele significados que não eram necessariamente os seus. Uma experiência particular havia se tornado reconhecível para outras pessoas.



“Quando crio, busco entender, sentir, transformar e comunicar”, diz Maria Luiza. É justamente essa passagem que parece interessá-la na arte: aquilo que começa dentro de alguém pode adquirir outra vida quando encontra outra pessoa. Ela escreve para dar sentido ao que carrega, mas também para descobrir o que acontece quando aquilo que era seu deixa de ser somente seu.


Se tivesse mais espaço para a arte, ela gostaria de escrever um livro de poemas, reunir seus textos em uma coletânea e experimentar a mistura entre poesia e teatro. Também imagina uma aproximação entre literatura e psicologia, área que pretende estudar, criando trabalhos que possam ajudar pessoas, provocar pensamento crítico ou fazê-las enxergar a si mesmas de outra maneira. Um dia, gostaria ainda de ser cronista de um jornal.


Por enquanto, porém, existem a estudante, as obrigações, as ideias que aparecem no meio delas e a tentativa constante de não deixar que desapareçam.


Talvez por isso, quando perguntada sobre o que diria a alguém que sente que a vida nunca deixa espaço suficiente para criar, Maria Luiza não fale sobre disciplina, produtividade ou inspiração. Ela fala sobre não esperar. A arte, para ela, não deveria ocupar apenas o espaço que sobra depois de todas as outras responsabilidades. “Nem tudo o que criamos precisa ser útil, perfeito ou transformar alguma coisa para ter valor.” Criar também pode ser “uma forma de existir, de olhar para o mundo com mais atenção ou de dar forma a algo que estava dentro de nós.”


A vida pode nunca abrir espaço suficiente. Maria Luiza parece ter entendido que, em vez de esperar por esse espaço, às vezes é preciso criá-lo.



"eu oceano" - Por Maria Luiza Salomão Smozono


me vejo perdida no meio do oceano. não há terra. não há horizonte. não há nada capaz de me dizer para onde ir. apenas água. uma quantidade absurda de água. tão vasta que chega a parecer impossível que eu ocupe espaço dentro dela. 


e talvez seja isso que me assuste. não o risco de morrer. mas a descoberta de que talvez eu nunca tenha sido grande o suficiente para deixar qualquer marca. 


durante muito tempo, a vida pareceu simples. eu existia através das pessoas. não no sentido de desaparecer nelas. no sentido de encontrá-las. havia algo profundamente vivo em aliviar uma dor, ouvir uma história, oferecer um pedaço de mim para que alguém carregasse um peso menor. eu gostava de acreditar que a existência era isso. uma sucessão de pequenos gestos. uma pessoa alcançando outra. uma luz sendo passada adiante. e, por muito tempo, isso bastou. talvez porque eu acreditasse que o mundo fosse feito dessas coisas. talvez porque eu acreditasse que mudar uma vida era, de alguma forma, mudar o próprio mundo. 


mas então o oceano apareceu. e o oceano não se importa. não importa quantas pessoas eu ame. não importa quantas eu salve. não importa quantas vezes eu estenda a mão. o mar continua avançando. as ondas continuam quebrando. as correntes continuam seguindo caminhos que jamais conhecerão meu nome. 


pela primeira vez, senti o tamanho brutal das coisas. o mundo não era uma coleção de vidas que eu poderia tocar. era algo muito maior. muito mais antigo. muito mais indiferente. e eu era apenas uma pessoa. apenas uma. lembro de ter gritado todos os nomes que me trouxeram até aqui. os nomes que me mantiveram viva. os nomes pelos quais eu teria atravessado tempestades. um por um. como quem tenta provar para si mesma que ainda existe alguma coisa sólida no universo. 


e então tentei gritar o meu. mas a voz não saiu. não porque eu não soubesse meu nome. mas porque já não sabia o que ele significava. quem eu era quando não estava ajudando alguém? quem eu era quando não estava amando alguém? quem eu era quando não estava tentando consertar alguma coisa? o silêncio não respondeu. e, pela primeira vez, suspeitei que talvez eu tivesse construído minha identidade inteira ao redor dos outros. como uma casa erguida sobre terreno alheio. eu conhecia os sonhos deles. as dores deles. os medos deles. os desejos deles. mas quando procurei os meus, encontrei apenas um espaço vazio. como um quarto abandonado há tantos anos que a poeira já faz parte dos móveis. e então compreendi algo que não queria compreender. não era apenas o mundo que parecia grande. era o fato de que eu já não conseguia encontrar meu tamanho dentro dele. 


o oceano tem uma maneira particular de destruir as coisas. ele não quebra. ele dissolve. uma gota não desaparece porque é arrancada de si mesma. ela desaparece porque deixa de saber onde termina. e às vezes sinto que aconteceu o mesmo comigo. passei tanto tempo me espalhando pelos outros que esqueci as fronteiras da minha própria existência. agora olho para o mar e vejo uma pergunta refletida em cada onda. uma pergunta simples. terrível. se eu não posso mudar a imensidão, qual é o sentido de continuar tentando? 


sempre acreditei que viver fosse deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrei. mas o oceano não fica melhor. não fica pior. ele apenas permanece. e eu não sei o que fazer com isso. não sei o que fazer com a descoberta de que algumas coisas são grandes demais para serem salvas. não sei o que fazer com a descoberta de que algumas feridas do mundo continuarão abertas muito depois de mim. não sei o que fazer com a descoberta de que minha vida inteira talvez caiba dentro de uma única onda. uma onda que se ergue. brilha por um instante sob a luz. e desaparece sem alterar o destino do mar. 


talvez seja por isso que estou aqui. flutuando entre a água e o céu. tentando entender se existir precisa, necessariamente, transformar alguma coisa. tentando entender se uma vida só possui valor quando muda o curso das marés. tentando entender se ainda há sentido em amar um mundo que jamais perceberá a dimensão do amor que recebeu. 


e talvez a parte mais dolorosa seja esta: não importa o quanto eu observe o oceano, ele nunca responderá. porque a imensidão não responde perguntas. ela apenas as torna maiores. 


e agora existe uma dentro de mim tão vasta quanto o próprio mar. não quero saber se sou capaz de mudar o mundo. quero saber se ainda sou capaz de encontrar a mim mesma dentro dele.

 
 
 

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